Um passeio pela Polônia: Varsóvia, Cracóvia e Auschwitz

Fizemos essa viagem em setembro de 2015 e nosso roteiro foi:

. Berlin – Varsóvia de trem (aproximadamente 5 horas);

. 2 noites em Varsóvia;

. Varsóvia – Cracóvia de trem (aproximadamente 2h30, mas pode variar muito! Explico mais pra frente)

. 1 noite em Cracóvia

. Cracóvia – Auschwitz de carro (1 hora para ir e 1 hora para voltar)

. Cracóvia – Varsóvia de trem

. Varsóvia – Berlin de trem

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Informações importantes:

. apesar de ser parte da União Européia e Espaço Schengen, a moeda não é o euro, mas sim o Złoty (impronunciável!). 1 euro equivale a  aproximadamente 4 Złoty.

. para ir à Auschwitz, o ideal é chegar antes das 10h da manhã. A partir desse horário só entra com visita guiada e as filas são enormes. A visita guiada custa 40 Złoty e tem em vários idiomas saindo em diversos horários (dá pra reservar pela internet).

. usamos apenas o tram como transporte público em Varsóvia. O bilhete pode ser comprado em máquinas que ficam nos pontos ou direto dentro do tram com o motorista. Você escolhe se o ticket vai ser de 25min ou 75min. Acho que tem outros tipos também, mas não consegui entender muito bem. Pode-se comprar o ticket também em lojinhas tipo banca de jornal.

. Gastos: as refeições em restaurante ficavam em torno de 40 Złoty por pessoa (10 euros aproximadamente); hospedagem cerca de 100 euros por dia em apto de dois quartos (estávamos em 3 adultos e 1 criança); passagens de trem cerca de 90 euros por pessoa contando todos os trechos.

. Não é todo mundo que fala inglês, mas em compensação o povo é extremamente atencioso e fazem de tudo pra te ajudar. Várias pessoas estranhas que me viram com dificuldade de me comunicar no Tram, na banca de jornal, enfim, vinham ajudar fazendo a tradução.

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Primeira parada: Varsóvia

A viagem de trem de Berlin para Varsóvia tanto na ida quanto na volta foi super tranquila. Eu particularmente amo viajar de trem, para mim é a forma mais confortável, especialmente com criança pequena. De carro a gente tem que parar toda hora e de avião a criança fica sem espaço pra brincar. Como já mencionei em outros posts, a gente sempre procura pedir o kleinkind Abteil e dessa vez ficamos com a cabine só pra gente. Estávamos em 3 adultos (minha mãe foi com a gente) e a Olivia e a cabine tinha 6 lugares. Embora não fosse tão espaçosa quanto as dos trens alemães que já tinha viajado, foi bem confortável.

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As passagens Berlin-Varsóvia-Berlin eu havia comprado com antecedência pelo site da DB mesmo, que já estou acostumada a usar e foi super tranquilo. Mas o trecho Varsóvia-Cracóvia deveria ser comprado direto no site da empresa polonesa de trens PKP. Apesar do site ser bem organizadinho e ter versão em inglês, achei o sistema de compra online muito ruim. Isso porque você não pode comprar o bilhete da criança ao mesmo tempo que o seu. Pelo que eu entendi, você primeiro compra o bilhete dos adultos, paga, e só depois pede o da criança, dando o número da compra do bilhete dos pais e eles dizem que “farão o possível para colocar juntos”. Fiquei tensa com a possibilidade de não sentarmos juntos, imagina?! Além disso, há uma série de bilhetes de desconto (para família, por exemplo), que não são simples de entender e apesar de existir a cabine para crianças, esta não pode ser reservada pela internet.

Bom, decidi então comprar assim que chegássemos na estaçao de Varsóvia as passagens para Cracóvia. Entrei numa fila enorme onde aparentemente só haviam poloneses e na hora em que chegou minha vez me dei conta que a pessoa que vendia os tickets não falava uma palavra de inglês ou de qualquer outra língua que não fosse polonês! Bom, por mímicas ela me pediu (eu acho) que escrevesse a data e hora da viagem, afinal a única coisa que ela tinha entendido era que eu queria ir para Cracóvia. Por sorte e porque os poloneses são seres extremamente prestativos (pelo menos os que cruzaram nosso caminho), um homem que estava na fila e falava inglês veio me ajudar. Mas com aquela fila enorme e a confusão da mulher que não falava inglês, acabei não prestando muita atenção nos detalhes da passagem, e mal saberia eu que isso me traria uma enorme dor de cabeça.

Bom, eu havia pesquisado antes no site da PKP e havia visto que existem pelo menos 2 tipos de trens direto, um que demorava 2h e outro que demorava 2h30 até Cracóvia. Eu preferia o de 2h, mas meia hora a mais também não era assim nenhum absurdo. Na ida foi tudo bem, o trem era todo de cabines, bem confortável, e a viagem durou 3h. Até aí ok, eu estava preparada pra 2h30, mas 3h passou rápido. O problema foi na volta. Nosso trem saía 15h de Cracóvia e a gente havia entendido que ele chegava 18h10 em Varsóvia. Logo que entramos estranhamos porque o vagão que estava marcado no bilhete não existia, e o trem parecia um trem urbano, desses que vão de Berlin pra Potsdam ou pra outra cidadezinha vizinha. As cadeiras não eram nada confortáveis e ninguém estava de mala. Mas confirmei com um polonês dentro do trem e era aquele mesmo. Bom, escolhemos qualquer lugar e sentamos. O Renato logo reparou que haviam umas 10 paradas escritas no trem e comentou: “ih, pegamos o parador”. Rimos e seguimos viagem. Quando eram umas 10 pras 18h, olhamos em volta e não tinha qualquer sinal de que estávamos chegando na capital. Estávamos no meio do mato. E ainda faltavam muitas paradas antes de Varsóvia. Resolvi olhar mais atentamente a passagem e putz! O trem chegava às 20h45 em Varsóvia! Quase 6h de viagem e ainda estávamos na metade! Gente, me deu tanta raiva da vendedora da estação, vontade de chorar, de descer do trem em movimento! Bom, pra melhorar não estávamos nem um pouco preparados. Não havíamos levado jantar pra Olivia e nesse trem “parador” não havia vagão restaurante. Ou seja, nem uma água a gente podia comprar! Por sorte, tínhamos um pacote de pão que tinha sobrado do café da manhã e uma garrafinha de água e lá pelas tantas passou um cara com um carrinho vendendo uns biscoitos e suco. E isso foi o q segurou a gente até às 9 e tanto da noite quando chegamos no apartamento. Resumo da história: a) melhor comprar pela internet mesmo, pq vc nunca sabe se vai achar alguém que fale inglês; b) SEMPRE leve um lanchinho extra reforçado pelo menos para a criança; c) confira o bilhete várias vezes antes da viagem!

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Bom, passado o relato estressante da viagem de trem, voltemos à parte boa. Chegamos em Varsóvia de tarde, deixamos as coisas no apartamento do Airbnb e fomos dar um passeio. Ficamos hospedados num apartamento excelente no centro da cidade, cerca de 10min a pé da estação de trem. É uma região bastante agradável, com muito comércio, bares, cafés, restaurantes (muitos veganos). Li em algum lugar que Varsóvia é a nova Berlin, e o clima lembra bastante na verdade, com muitos cafés e restaurantes pequenos num ambiente meio cool. A arquitetura é bastante sóbria e alguns prédios estão em mal estado de conservação, mas em geral tem um clima bem legal.

Escolhemos um restaurante que parecia bem típico polonês. O restaurante se chama Zascianek e é bem pequeno (tem apenas 4 ou 5 mesas), com um clima rústico, todo de madeira. A comida estava divina e era exatamente o que estávamos esperando. O prato principal da casa é o nhoque, que na verdade é um nhoque frito e lembra um pouco uma batata noisette, só que muito melhor. Existem diversas opções de molhos e à vezes ele é servido também como acompanhamento de pratos de carne. A gente pediu um nhoque com molho de cogumelos de entrada e de prato principal costela de porco, vitela e uma outra carne de porco que estavam maravilhosos! Para beber uma cerveja local, também muito gostosa. E o preço é bem justo, os pratos custam em torno de 30 a 40 Złoty, menos de 10 euros.

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Depois de jantar passamos na frente de um outro restaurante que tinha uma vitrine de doces muito convidativa. Não resistimos e compramos uns docinhos. Meio caros, mas maravilhosos! O nome do restaurante é Smaki Warszawy e gostamos tanto que no último dia em Varsóvia voltamos pra almoçar e experimentar uma das tortas de merengue com frutas lindíssimas da vitrine. Não nos arrependemos. É um restaurante mais gourmet, então os pratos não são tão bem servidos e tem sempre aquele ar um pouco mais sofisticado que não é muito a nossa praia, mas estava tudo incrivelmente delicioso. Até a Olivia se esbaldou no risoto com queijo parmesão que eu pedi. A torta é realmente um achado! Vale a pena ir lá só pra comer uma fatia. É bem grande, então dá pra dividir, mas é também bem cara (19 Złoty a fatia). Bom, valeu a pena!

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No dia seguinte fomos conhecer a cidade antiga, ou Stare Miasto. Do apartamento até lá era bem fácil, pegando apenas um tram. Como estava chovendo e estávamos com Olivia e minha mãe, resolvemos pegar um desses trenzinhos turísticos saindo de uma grande praça logo na chegada. Normalmente não é o tipo de passeio que a gente faria ou recomenda, mas como estávamos com pouco tempo acho que valeu pra dar uma olhada geral. Mas o trenzinho não passa nos pontos mais legais da cidade, esses tem que ser percorridos a pé. Não é uma área muito grande e com disposição dá pra percorrer em um dia. Há alguns trechos da muralha preservados, museus, muitos edifícios residenciais históricos, o local onde era o gueto de Varsóvia (o maior gueto judaico criado pelos nazistas na Polônia durante a segunda guerra), diversos bares e cafés, museus. Enfim, é um passeio que dá pra ser feito em maior ou menor tempo, dependendo do foco e da disposição de cada um. De fato é uma cidade bastante interessante, com uma história muito forte impregnada na sua arquitetura.

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Outro aspecto muito interessante dessa cidade, e que na verdade foi o que me motivou a conhecê-la já que trata-se do tema do meu doutorado, é sua história com as ocupações de edifícios. Logo após o fim da segunda guerra, Varsóvia tinha sido completamente destruída, a ponto de a União Soviética discutir se valia a pena reconstruir ou se seria melhor mudar a capital para outra cidade. Nesse meio tempo, as mulheres (a maior parte dos homens jovens morreu na guerra) antigas moradoras da cidade, que haviam saído por conta da guerra voltaram e começaram a ocupar as ruínas e reconstruir com suas próprias mãos. Posteriormente, o governo atuou no sentido de reconstruir parte da cidade, mas focou-se principalmente nos edifícios institucionais e espaços públicos. As primeiras habitações sociais na Polônia surgiram com a legalização destas ocupações. Após a queda da União Soviética e o fim do regime comunista, 90% das habitações foi imediatamente privatizada e milhares de pessoas foram despejadas após anos de trabalho de reconstrução e manutenção destas casas e da cidade. Muitas pessoas então reocuparam edifícios. Um destes edifícios é um edifício na área central, ocupada atualmente pelo coletivo Syrena. A última ocupação deste edifício ocorreu nos anos 2000, após uma das líderes do movimento de ocupações, e uma das mulheres que participou da reconstrução da cidade, foi assassinada pela polícia. Atualmente o edifício resiste numa área bastante valorizada da cidade. Conheci essa história através de dois membros do Syrena que conheci em um encontro em Barcelona e fiquei muito impressionada com a força dessas mulheres. Acho que meu olhar sobre a cidade foi muito diferente após ter ouvido (e visto tantas imagens) este relato importantíssimo de luta e senso de coletividade.

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Nos próximos posts falaremos sobre a linda Cracóvia e o passeio a Auschwitz.

 

 

 

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5 comentários em “Um passeio pela Polônia: Varsóvia, Cracóvia e Auschwitz

  1. Estávamos (casal) pensando em fazer esse mesmo trecho acima descrito. Acessei a internet e por acaso ví sua reportagem. Excelente. Ajudou muito. Obrigado. Estamos ansiosos pra ver como foi Cracóvia e Auschwitz. Muito obrigado

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